Revisão incorpora evidências recentes e propõe uma abordagem mais ampla desde o diagnóstico
O diabetes tem avançado entre os brasileiros nas últimas duas décadas. Dados do Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde, mostram que 12,9% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal relataram diagnóstico médico da doença em 2024. Em 2006, esse percentual era de 5,5%.
Ao mesmo tempo, os avanços no conhecimento sobre a doença e a chegada de novas opções de tratamento mudaram a forma de encarar o diabetes tipo 2, responsável por cerca de 90% dos casos no País.
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) atualizou suas diretrizes, ampliando os objetivos do tratamento para além do controle da glicemia.
As novas recomendações trazem mudanças desde a avaliação inicial do paciente até a escolha dos medicamentos. O documento também atualiza as orientações para mulheres com diabetes que planejam engravidar.
O que entra na nova diretriz
Uma das principais mudanças está na forma de conduzir o tratamento desde o diagnóstico. Segundo Marcello Bertoluci, coordenador das diretrizes da SBD, antes o foco estava principalmente no controle da glicemia. Agora, o documento estabelece três frentes de cuidado: controlar os níveis de glicose, combater o excesso de peso e reduzir o risco de complicações cardiovasculares e renais.
“Essas três frentes precisam ser consideradas desde o início do tratamento. Na avaliação inicial, é importante analisar não apenas a glicemia, mas também o peso e o risco cardiorrenal do paciente”, afirma Bertoluci.
A inclusão do peso entre os pilares está relacionada ao maior entendimento sobre o papel da obesidade na evolução do diabetes tipo 2. Ela pode prejudicar a produção de insulina pelo pâncreas e favorecer o acúmulo de gordura em outros órgãos, contribuindo para o avanço do diabetes e de suas complicações.
O risco cardiorrenal também passa a ser considerado desde o começo. Isso significa avaliar a possibilidade de o paciente desenvolver ou já apresentar problemas no coração e nos rins. A partir dessa avaliação, o tratamento pode ser direcionado não apenas para reduzir a glicose no sangue, mas também para prevenir a progressão dessas complicações.
Apesar da ampliação dos objetivos, o controle da glicemia continua sendo fundamental. Bertoluci destaca que atingir a meta de hemoglobina glicada precocemente é importante para diminuir o risco de complicações no longo prazo.
Canetas ganham mais espaço no tratamento
Outra mudança está no espaço dado aos medicamentos que também promovem perda de peso, como a semaglutida (Ozenpic, Wegovy, Oziv e Ribelsus) e a tirzepatida (Monjauro). Além de ajudarem no controle da glicemia e do peso, essas medicações podem trazer benefícios cardiovasculares.
A indicação, porém, não vale para todos. A diretriz recomenda esses medicamentos para adultos com diabetes tipo 2 e obesidade, com IMC a partir de 30 kg/m². Para aqueles com sobrepeso e IMC entre 27 e 29,9 kg/m², o tratamento pode ser considerado, de acordo com as características e os riscos de cada paciente.
“Não estamos usando essas medicações para estética, mas para proteger o paciente de complicações associadas ao coração, aos rins e ao metabolismo, que têm impacto direto na saúde”, afirma Bertoluci.
O especialista também ressalta que, quando há indicação para tratar a obesidade, a perspectiva é de um cuidado de longo prazo. Isso porque a obesidade é uma doença crônica e a interrupção da medicação pode levar ao reganho de peso.
Mudanças para quem deseja engravidar
As diretrizes também trazem novas recomendações para mulheres com diabetes que pretendem engravidar. O controle da glicose é especialmente importante no início da gestação, já que níveis elevados nesse período aumentam o risco de malformações fetais e de outras complicações.
Mulheres com hemoglobina glicada acima de 9% devem ser aconselhadas a adiar a gravidez e orientadas sobre métodos contraceptivos enquanto melhoram o controle da doença.
“É claro que a decisão de engravidar é da mulher, mas o profissional de saúde deve aconselhar a evitar a gravidez se ela estiver com hemoglobina glicada acima de 9%”, explica Lenita Zajdenverg, coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD.
As canetas de agonistas de GLP-1 também não são recomendadas durante a gestação, já que ainda não há evidências suficientes sobre sua segurança nessa fase. Por isso, o tratamento deve ser revisto durante o planejamento da gravidez.
Tratamento de crianças e adolescentes
Para crianças e adolescentes, o cuidado começa principalmente pela adoção de hábitos saudáveis. Bertoluci destaca a importância da alimentação adequada e da prática de atividade física desde a infância, com a participação da família, para controlar o excesso de peso e evitar a progressão de alterações metabólicas.
O uso das canetas, por sua vez, segue critérios específicos de acordo com a idade e a finalidade do tratamento. A Anvisa autoriza a semaglutida para o tratamento da obesidade em adolescentes a partir dos 12 anos, desde que tenham peso corporal acima de 60 kg. Já a tirzepatida pode ser usada no tratamento do diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos.
Para controle do peso, no entanto, a tirzepatida é autorizada apenas para adultos. Isso significa que a possibilidade de usar esses medicamentos entre crianças e adolescentes varia conforme a substância, a idade e se o objetivo é tratar o diabetes tipo 2 ou a obesidade.
Fonte: Estadão (24/08/2026)
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