sexta-feira, 28 de agosto de 2026

TIC: Como o sonho da "supertele" Oi terminou em falencia



"A Oi vai ser uma grande tele nacional."

A frase, dita com entusiasmo pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho de 2010, resumia a ambição de transformar a empresa em uma gigante brasileira de telecomunicações. A ideia era criar uma companhia nacional forte o suficiente para disputar espaço com as grandes operadoras estrangeiras. 

O contraste com a realidade atual é brutal. Ontem (25), o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decretou novamente a falência da Oi. No lugar do projeto de uma grande operadora nacional, restam uma empresa desmontada pela venda de seus principais ativos, mais de uma década de disputas com credores e uma complexa transição para manter serviços considerados essenciais. 

O sonho da "supertele" 

  • A história da Oi começou em 1998, com a privatização do sistema Telebras e a criação da Telemar. A empresa cresceu nos anos seguintes e, em 2009, passou a usar a marca Oi após a incorporação da Brasil Telecom. 
  • Um dos momentos decisivos ocorreu em 2008, quando o governo alterou a legislação para permitir a aquisição da Brasil Telecom pela Oi. A operação era vista como parte do esforço para criar uma grande empresa brasileira de telecomunicações, capaz de competir em escala com as multinacionais que dominavam o setor. 
  • O projeto ganhou uma nova dimensão em 2010, quando a Portugal Telecom entrou no capital da Oi. A associação, porém, acabou trazendo novos problemas para uma companhia que já carregava um elevado endividamento. 
  • Em 2014, veio à tona a exposição da Portugal Telecom à dívida da Rioforte, empresa do grupo Espírito Santo. A Oi acabou arcando com um impacto de cerca de € 897 milhões, em mais um golpe sobre as finanças da operadora. 

A primeira recuperação judicial 

  • Pressionada por uma dívida de cerca de R$ 65 bilhões, a Oi entrou com seu primeiro pedido de recuperação judicial em junho de 2016. Na época, era a maior recuperação judicial da história do país. O processo envolvia dezenas de milhares de credores e colocava em xeque a sobrevivência de uma das maiores empresas brasileiras de telecomunicações. 
  • A saída encontrada passou pela venda de boa parte dos ativos da companhia. A operação de telefonia móvel, uma das principais unidades da Oi, foi colocada à venda para ajudar a pagar credores e reorganizar a empresa.
  • Em dezembro de 2020, a Oi Móvel foi arrematada por R$ 16,5 bilhões. A operação se deu em um leilão vencido por um consórcio formado por Claro, TIM e Vivo. 
  • As três maiores concorrentes dividiram a operação para evitar uma concentração ainda maior no mercado de telefonia móvel. A TIM ficou com a maior fatia, seguida por Claro e Vivo, em uma divisão que levou em conta a presença das empresas em diferentes regiões do país. 
  • A operação redesenhou o mercado brasileiro de telefonia móvel. Os clientes da Oi foram distribuídos entre as três concorrentes, e a empresa deixou de atuar nesse segmento. 
  • A venda, contudo, ainda enfrentou problemas depois de aprovada. Em 2022, a Anatel chegou a ameaçar recorrer à Justiça diante da resistência das operadoras em cumprir determinadas obrigações relacionadas ao compartilhamento de infraestrutura e ao atendimento de metas estabelecidas para a operação. 

A recuperação que desmontou a empresa 

  • A Oi conseguiu deixar a recuperação judicial em dezembro de 2022, mas a empresa que saiu do processo era muito diferente daquela que havia entrado nele. Além da operação móvel, outros ativos importantes haviam sido vendidos, entre eles a infraestrutura de fibra óptica que deu origem à V.tal. Continua após a publicidade. 
  • O plano era concentrar a companhia em serviços de banda larga, infraestrutura e atendimento ao mercado corporativo. Com menos ativos e uma estrutura financeira reorganizada, a expectativa era de que a Oi finalmente tivesse condições de voltar a operar sem a proteção da Justiça. 
  • Ao encerrar o processo, o juiz Fernando Viana, da sétima Vara Empresarial do Rio de Janeiro, classificou-o como "o mais impactante e relevante processo de recuperação judicial do Judiciário brasileiro". A frase resumia a dimensão de um processo que durou seis anos e envolveu dezenas de milhares de credores. A estabilidade, porém, foi breve. 

Dois meses depois, uma nova recuperação 

  • Em março de 2023, pouco mais de dois meses depois de sair da primeira recuperação judicial, a Oi entrou novamente com pedido de proteção contra credores. A empresa declarou mais de R$ 43 bilhões em dívidas e voltou a negociar com credores enquanto tentava encontrar uma forma de continuar operando. 
  • A segunda recuperação judicial foi marcada por novas vendas de ativos, dificuldades financeiras e uma longa disputa sobre o futuro da companhia. A Oi deixou de ser uma grande operadora de telefonia para se tornar uma empresa muito menor, concentrada principalmente em serviços corporativos e infraestrutura. 
  • A companhia chegou a ter a falência decretada pela Justiça em novembro de 2025. Na ocasião, a juíza Simone Gastesi Chevrand avaliou que a Oi vinha se mantendo de forma anômala, sustentada pela venda de ativos e pela contratação de empréstimos, sem que a operação em si fosse capaz de sustentar a empresa. Continua após a publicidade. 
  • A decisão, porém, foi suspensa após recursos apresentados pelos bancos Itaú Unibanco e Bradesco. Ao conceder o efeito suspensivo, a desembargadora Mônica Maria Costa Di Piero considerou que "a preservação da empresa viável e de sua função social devem balizar" todo o processo de reestruturação, permitindo que a Oi seguisse em recuperação judicial até o julgamento definitivo dos recursos. 
  • Agora, a Justiça voltou a decretar a falência da empresa. A Primeira Câmara de Direito Privado do TJ-RJ julgou os recursos dos bancos e restabeleceu a quebra. A decisão encerra a tentativa de recuperação da companhia e abre uma nova etapa, na qual os ativos remanescentes serão administrados no processo de falência e os credores buscarão receber o que for possível. 
  • Os números apresentados à Justiça mostram a gravidade da situação. Segundo dados do processo, o caixa da companhia havia caído para R$ 19,6 milhões, enquanto o patrimônio líquido do grupo era negativo em R$ 22,6 bilhões. A dívida girava em torno de R$ 44,3 bilhões, com aproximadamente 164 mil credores. 

A Oi pode simplesmente desligar? 

  • A falência, porém, não significa que a Oi possa simplesmente interromper suas operações. Mesmo reduzida a uma fração do que já foi, a empresa ainda mantém estruturas usadas por serviços considerados essenciais. 
  • A companhia mantém conexões utilizadas por milhares de casas lotéricas da Caixa. Esse vínculo já causou problemas recentes: em julho e agosto deste ano, uma fornecedora da Oi, a Sitelbra, chegou a interromper serviços ligados a lotéricas, câmeras de monitoramento policial e unidades da Enel em diferentes estados, obrigando a Justiça a determinar o restabelecimento das conexões sob pena de multa. Continua após a publicidade 
  • Por isso, a interrupção dos serviços que ainda restam sob responsabilidade da Oi não pode ocorrer de forma imediata. A Justiça e a Anatel seguem acompanhando a transição, de modo a garantir a continuidade das operações enquanto a infraestrutura remanescente é transferida ou substituída por outros provedores. 
  • A Oi era responsável tecnicamente por milhares de terminais associados a serviços de emergência, como 190, 192 e 193, usados respectivamente pelas polícias militares, pelo Samu e pelos bombeiros. Essa responsabilidade, porém, mudou de mãos: em abril de 2026, a operação de telefonia fixa residencial — incluindo a gestão desses números — foi vendida em leilão judicial para a Método Telecom, por R$ 60,1 milhões, com a obrigação de manter o serviço em mais de 7.400 localidades até dezembro de 2028. 
  • A Oi também chegou a prestar serviços de conectividade para o Cindacta, da Força Aérea Brasileira. Esses contratos, porém, já foram transferidos para a Claro, após decisão judicial que homologou a operação em 2025. 

Do sonho da "supertele" ao fim da Oi 

  • A Oi que chega à falência em 2026 é uma companhia muito distante daquela imaginada pelo governo no início da década passada. A empresa que deveria se transformar em uma grande operadora nacional acabou vendendo a telefonia móvel, a infraestrutura de fibra e outros ativos para tentar sobreviver às dívidas acumuladas. 
  • A crise também trouxe prejuízos aos trabalhadores da companhia. Na semana passada, a Oi fechou acordo com sindicatos para reduzir em 60% seu quadro de funcionários, com as verbas rescisórias parceladas em dez prestações. Antes dos cortes, o grupo mantinha cerca de dois mil colaboradores — uma fração dos milhares de empregados que a empresa chegou a ter em seu auge. 
  • Do lado dos credores, o quadro também mudou ao longo do processo. Fundos como Pimco, SC Lowy e Ashmore converteram parte de seus créditos em ações da Oi a partir de 2024 e passaram a ter participação relevante na companhia. A mudança transformou também a estrutura societária da empresa durante a segunda recuperação judicial. 
  • O projeto da "supertele" terminou sendo substituído. Deu lugar a uma sucessão de recuperações judiciais, vendas de ativos e tentativas de preservar uma empresa cada vez menor. 
  • Agora, a falência encerra a última tentativa de recuperação financeira da companhia. Mas o fim da Oi como empresa não significa o desaparecimento imediato de sua infraestrutura: credores, Justiça, Anatel e governo ainda terão de administrar a transferência dos serviços e dos ativos que continuam sendo importantes para o país.

Fonte: UOL (26/08/2026)

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